quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

A vida anda de busão




Vinha remoendo raiva do dia anterior. Planejando a resposta cortante que faria uma úlcera nos egos inflados, e quebraria relações construídas aos blocos, como um sopro de cartas. Aí um velho olha pra trás, em direção a minha cadeira no ônibus, e pergunta bem casualmente, como alguém que quer uma informação: tá vendo aquela mulher ali na frente?

Deus me perdoe por isso mas pensei que era um velho bêbado! Na melhor das hipóteses, um "veio" gagá que ia mofar, minar, minha paciência com perguntas desconexas.

E ele mesmo responde em seguida: é a dona do INSS dessa cidade...

O senhor de bermuda jeans, camisa de time da região metropolitana do Recife (acho que era Santa Cruz, para não cometer nenhuma injustiça!), chinelos Havaianas (cor branca, mas encardidas, como as minhas!), tinha as unhas bem cortadas  e limpas, cabelo rente e os olhos opacos de catarata, algum resquício de sequidão, ou uma dor intangível...

É fato que eu destrui meu preconceito naquele momento pois o homem (que velho ele não se considerava, e estava certo sobre isso!), me disse o motivo pelo qual a "dona do INSS" era nada mais - nada mais de novo - que uma funcionaria ruim. Dessas que passam uma vida inteira trabalhando, mas o mau compromisso a faz  pegar ônibus lotado todos os dias para seu mau humor e fica mal humorada por ter que suportar coletivo lotado... Uma simples informação e ela lhe negara com um grande "Não!" Tudo porque era 11:30 da manhã... O de sempre...
Ele falava do banco reservado aos idosos e não resistiu ao meu lado que estava vago. Veio, contou sobre ter ido a outra agencia e ter obtido a bendita informação em menos de dois minutos.

Meu Jesus, quele homem era um militar de Deus. Não porque consagra uma Jihad em nome dos tecnocrentes de Jeová, mas porque tinha sido funcionário do ministério da defesa do país, depois de ter passado longos anos como varredor das ruas, o gari.

Não foi a história dele que me impressionou, nem a atitude desprendida... até porque algumas pessoas podem ser enganosas, sempre há os exemplos e em casa tenho um exemplar dessa espécie. O que me comoveu mesmo foi a intervenção de Deus, da forma mais sutil, colocando um homem de olhos opacos pra me dizer afinal: "Meu filho, o negocio é ter fé, caráter, e humildade... Todo o resto é inventado."

Seu João, tinha que ser um João, o homem que deixou a limpeza da rua por um convite e foi pro exercito, estava convicto que não existe ninguém melhor que ninguém e chegamos a conclusão, naquele coletivo, com a a ajuda dos provérbios populares, que "gente metida à merda é feito rabo de cavalo e só cresce pra baixo", que "araruta (especie de bolacha típica) tem seu dia de mingau", etc e etc...
(Risos)

É desnecessário dizer que ficamos amigos instantaneamente, que conversamos como velhos conhecidos, para minha vergonha e minha redenção, e nos cumprimentamos com um bom aperto de mãos, como homens. Agradeci aos Céus o ensinamento  e me perdoei pela chatice diária, a chatice de ser eu, também, e perdoei... Justamente, por trabalhar com outros "donos do INSS".

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